UMA IBITIPOCA POR CONHECER

Os limites territoriais da atual Ibitipoca e mesmo sua condição de distrito, na forma como entendemos hoje, nem de perto se aproximam da importância, magnitude e complexidade da velha Ibitipoca.
Quando a pesquisa se envereda em documentos primários, é impossível não se impressionar com a dinâmica e complexa relação entre indígenas, moradores, mineradores, agentes militares, escravizados, agrupados em ranchos, datas minerais, fazendas, capelas, caminhos proibidos e rotas policiais de fiscalização.
O nome Ibitipoca abrangia uma imensa área, não apenas territorial e geográfica, mas também econômica e social, espalhada hoje em dezenas de localidades como a própria Ibitipoca, Santa Rita, Ibertioga, Ilhéus, Bias Fortes, Pedro Teixeira, Lima Duarte, Rio Preto, Santa Bárbara do Monte Verde, Santana do Garambéu, Rosário de Minas, Bom Jardim de Minas, São Domingos da Bocaina, Olaria, Rancharia, Elvas e Rio Preto, todas integradas a uma mesma rede de ocupação e circulação. O que hoje se percebe como espaços fragmentados constituía, na verdade, um território profundamente interligado.
A ocupação da região por não indígenas começa a partir de expedições vindas do atual estado de São Paulo, no final do século XVII. A citada bandeira do Padre Faria, em 1693, não deu origem à Ibitipoca, como se muito diz. Apenas cita o Monte de Ibitipoca como referência visual de paisagem e claramente segue roteiro seguido anteriormente por outros sertanistas, entre eles, Bartholomeu da Cunha Gago, falecido em 1685, e citado no documento como informante da existência de metal precioso na região, depois explorada por seu filho. É justo supor que, por essa época, a região já estivesse sendo explorada e habitada, ainda que informalmente.
Vem dessa época, unindo povoações irmãs, o velho caminho de que de Aiuruoca ia a Serranos, atravessava o Rio Grande, em Santana do Garambéu e seguia, via vale do Ribeirão da Conceição, até Ibitipoca.
A oficialidade vem com a nomeação do taubateano Melchior Félix, em 1708, como 1º Capitão Mór e Superintendente dos distritos de Aiuruoca e Ibitipoca. A essa se seguem muitas outras nomeações de repartidores de terras e datas minerais, comandantes de corpos de milícias a pé e montados, funcionários do sistema de arrecadação de impostos e taxas e fiscais de comércio e posturas, além de curas de capela.
A existência de uma diversificada estrutura estatal na região indica fortaleza econômica, importância estratégica e política, controlada e vigiada. A Ibitipoca de então será muitas vezes tolhida em seus anseios, por interferência política, como a que ocorreu em 1750, quando foi impedida de ter sua capela elevada à Curato, sonho que se concretizará somente em 18 de janeiro de 1820, com a elevação à Freguesia (paróquia).
Já no século XIX, a povoação atrairá para si o movimento de antigas picadas e caminhos, que levavam de São João Del Rei à Corte no Rio de Janeiro, via Rio Preto, oficializadas pelo nome de Estrada Geral da Polícia, a qual recebe em cada trecho um nome local, como Estrada do Rio Preto, Estrada Imperial, Estrada das Voltas, Estrada do Piçarrão, Estrada das Boiadas ou Estrada da Rancharia.
O território do vasto distrito/freguesia vai sendo talhado aos poucos. Ao final do século XIX, já havia perdido Rio Preto, emancipado em 1844, Rio do Peixe (Lima Duarte, emancipado em 1881). Dos distritos, curatos e capelas que possuía em 1820, quando foi criada a freguesia/distrito, Bom Jardim havia passado ao municipio do Turvo (Andrelândia), Santana do Garambéu e São Domingos da Bocaina foram anexados a Lima Duarte. Ibertioga, Dores do Quilombo (Bias Fortes) e Rosário de Minas foram, ao final, anexados a Barbacena. A emancipação de Lima Duarte, em 3 de outubro de 1881, anexa a Freguesia de Conceição de Ibitipoca ao seu território, situação que permanece até os dias atuais.
Um pouco da desconhecida Ibitipoca, que aos poucos vamos redescobrindo…
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